O Voo da Garça
Palavras-chave:
demarcação de terras indígenas, baixo rio Branco, povo Macuxi, imigração venezuelana Warao, romance amazônico contemporâneoSinopse
O Voo da Garça, de Carlos Borges, é um romance sobre uma mesma terra vista por muitas histórias. O palco é Roraima — Boa Vista, o lavrado, o Rio Branco —, mas o autor avisa: o conflito da Terra Indígena Baixo Rio Branco é ficção, eco de processos reais, não reconstituição de um caso específico.
A narrativa abre em outubro de 2024, numa audiência pública. De um lado, Adriana Raposo da Silva, liderança Macuxi do CIBR, que prometeu à avó Benedita ver a terra demarcada — e a avó morreu sem isso. Do outro, Fabrício Lorenzetti, pecuarista cuja família chegou do Sul em 1951 com a certeza de que terra sem dono é terra disponível. No centro, o juiz federal Henrique Figueiredo Matos, filho de maranhense que também veio atrás de lote e nunca recebeu título. Traduzindo o que a sala não diz está Yolanda Pérez, venezuelana formada em Direito, que aprendeu que conhecer a lei e poder usá-la são coisas diferentes.
O livro recua no tempo para mostrar como cada um chegou: Ênio Lorenzetti e a fronteira agrícola; as famílias Macuxi e o que o cartório nunca registrou; Seu Raimundo e o ônibus fretado; a elite que se fez “com alguma ajuda”; a Loja, o comércio, a universidade, o rio que não está no mapa. Casamentos misturam povos. Uma diligência desce o rio. Um funcionário do conselho indígena, Neudo, sabe demais. Kenji Yamamoto, neto de imigrante japonês, guarda oito anos de medições ambientais. Aparecem garimpo, lodge, mercúrio, um deputado que sobrevive a tudo e uma investigação que tira o processo do puro debate fundiário.
Não há sentença final. Em 2025 o processo completa dezesseis anos e, pela primeira vez, anda de verdade: relatório circunstanciado, Funai que aprova, Ministério da Justiça com prazo no horizonte. A sobreposição na fazenda de Fabrício é menor do que o medo e maior do que o desejo. Ele descobre que Celestino Raposo da Silva — o Macuxi que ensinou o avô a drenar a terra — é parente de Adriana. Henrique não sobe na lista de promoção. Yolanda e Kenji começam a ficar no mesmo lugar. Sebastião pesca com o neto e vê o pirarucu voltar à margem.
O mosaico não se completa. A terra não é “devolvida”: começa a ser reconhecida. O rio não fica limpo: começa a ser defendido. Os mortos não voltam: são nomeados. E no fim, no Rio Branco que não é branco, a garça — depois de tanta espera imóvel — voa
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